terça-feira, 13 de novembro de 2007

A PALAVRA E A MÚSICA

“E ele deu uns como apóstolos, e outros como profetas,
e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres,
tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos,
para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.11,12).

1. A defesa da indispensabilidade dos ministérios na Igreja
1.1. Os ministérios são recorrentes na Bíblia e dela são originários.
1.2. Os ministérios possuem a dupla função de: “aperfeiçoamento dos santos” e “edificação do corpo de Cristo” (cf. Ef 4.11,12).
1.3. A Igreja contemporânea necessita capacitar-se para responder à altura “a razão da esperança” que nos faz ser cristão e cultuar (1Pe 3.15).
1.4. A Igreja contemporânea precisa estar preparada para uma contextualização da forma sem abrir mão do conteúdo (princípios são eternos, métodos e estilos transitórios).
1.5. A multiplicidade de ministérios arregimenta colaboradores, forja líderes e oferece maior possibilidade de participação dos crentes nas atividades do Reino.
1.6. Existem os ministérios biblicamente estabelecidos e os que respondem às necessidades conjunturais do momento histórico da Igreja. Todos, porém, devem ter uma motivação e uma base bíblica para que aconteçam de forma abençoadora. (Ex. Um ministério determinado não possui explicitamente uma instituição bíblica, mas responde e atende ao princípio geral do “amor ao próximo”).
1.7. Os ministérios devem corroborar para o cumprimento da missão da Igreja. A implantação e o desenvolvimento de um ministério não pode ter um fim em si mesmo, mas contribuir para a efetivação da missão da Igreja conforme o propósito de Deus em sua fundação. Lembremos que em 1Coríntios 12, os dons são distribuídos pelo Espírito (v. 7), atendendo aos interesses do Reino e não do indivíduo (é como o Espírito quer e não como o indivíduo exige – v. 11), com foco na comunidade (“proveito comum” - v. 7), e com uma determinação de utilidade.
1.8. Nas principais listas de dons que aparecem na Bíblia (Rm 12.6-8; 1Co 12.4-11; 1Co 12.28-30; Ef 4.7-12; 1Pe 4.11) não aparece o “dom da música”. Podemos desdobrar esta discussão em torno da questão dos dons naturais e dons espirituais. Podemos também tratar sob o foco de ministérios, tarefas e serviços ou, usando os termos do apóstolo Paulo, dons, ministérios e operações (1Co 12. 4-6). Mas, lembremos da “diversidade”, tão amplamente discutida por ele no mesmo contexto.

2. Uma análise da prática corrente de ministérios na Igreja local
2.1. Nem todas as Igrejas estão conscientes da necessidade de ministérios auxiliares efetivos na consecução de seus objetivos.
2.2. Parte desta carência é oriunda da falta de recursos financeiros para investimento em áreas que demandam maior comprometimento de verba.
2.3. Outra parte desta carência ainda é representada pela falta de “mão de obra” disponível no mercado.
2.4. Mas, a parte mais significativa desta carência é fruto da falta de visão com relação a: “onde”, “quando” e “em que” aplicar melhor os recursos da Igreja. (Piano + aparelhagem de som + retroprojetor + multimídia + planejamento + sabedoria + unção espiritual = melhor culto > que traz mais assistentes > que aumenta a membresia > que aumenta a arrecadação > que gera novas possibilidades de investimento em outras áreas).
2.5. Existe uma tendência moderna ao “personalismo ministerial”. Tudo gira em torno da figura do ministro (seja o pastor ou outro), cuja figura deve ser respeitada ao extremo da subserviência, o que gera distorções graves no Corpo de Cristo. Alguns segmentos religiosos incentivam tal prática e até procuram sustentá-la com uma interpretação equivocada do que seja o “ministério sacerdotal” na Bíblia e na atualidade.
2.6. Esse estrelismo é grave e nocivo ao Reino. Não tem nada a ver com a virtude da humildade pregada por Cristo, muito menos com a condição de “servos”, dos ministros de Deus. Se Jesus assumia que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida por muitos, certos “ministros” de hoje almejam o estrelato e a acorrência e anuência de quem lhes possa servir e bajular, numa verdadeira “tietagem gospel” de triste presença (Mt 20.28).
2.7. Precisamos estar cônscios de que todos os ministérios devem ser entendidos e respeitados como indispensáveis e contribuintes efetivos para o Reino. Não se deve menosprezar a figura do “pastor de ovelhas”, muito menos apequenar sua responsabilidade conforme a Bíblia apresenta. Todavia, a disputa de egos na liderança da Igreja não condiz com o cristianismo, nem contribui para a efetiva harmonia no rebanho. Ministros devem trabalhar em conjunto e parceria visando ao bem comum da Igreja de Cristo.
2.8. Ainda assim, dentre tantos ministérios possíveis e imagináveis numa igreja local (sei de igrejas que já chegaram a possuir 135 ministérios, e a Igreja pode possuir tantos ministérios quantos sejam os ministros disponíveis para efetivá-los e realizá-los), as figuras do “pastor de ovelhas”, do “pregador da Palavra” e do “ministro de música” ou “ministro de culto”, são proeminentes. Destacam-se, por terem sua imagem associada diretamente ao Culto, com maior presença de mídia em função da assistência maior de fiéis aos cultos públicos, realizados especialmente no Santuário. Não são estranhas, à maioria de nós, as fissuras e arranhões provocados na relação PASTOR / MINISTRO DE MÚSICA, quando a crise de “estrelato” ou divergências do cotidiano bate forte.
2.9. A realidade mostra que as Igrejas ainda não fazem o investimento necessário em alguns ministérios vitais: Ainda há muitas igrejas sem pastor (embora haja igrejas com muitos pastores). O problema não é a demanda, a oferta, mas é o mercado: Precisamos urgente de uma “pastoral do interior” nos seminários para preparar pastores especificamente para trabalhar com igrejas de cidades pequenas do interior, igrejas localizadas em zona rural, igrejas de bairros proletários, pequenas igrejas e outros modelos, tudo isso dentro de um programa denominacional com sustentação do Plano Cooperativo de modo que ninguém se sinta desestimulado a encarar tal ministério por falta de recursos mínimos de sobrevivência para si mesmo e família. Falar na quantidade de Igrejas sem ministro de música e sem ministro de educação religiosa é ainda mais preocupante. Ou seja, há demanda, mas falta visão!

3. O futuro das parcerias ministeriais para o culto religioso
3.1. A Igreja Contemporânea precisa fazer frente aos avanços tecnológicos e oferecer um culto com maior apelo visual (nossa geração evangélica usa mais o sentido da “visão” do que da “audição”). Não nos esqueçamos que, se para os romanos Paulo disse que “a fé vem pelo ouvir e ouvir a palavra de Deus” (Rm 10.17), para os gálatas ele lembra que Jesus Cristo foi “representado como crucificado” perante eles (Gl 3.1).
3.2. Houve um aumento da concorrência da oferta de produtos e serviços religiosos e de entretenimento no mundo moderno. Antigamente a Igreja cumpria a função de suprir o indivíduo com lazer, confraternização, sociabilidade, cultura, esportes, culinária, moda e até Bíblia. Gravitava ao redor da Igreja toda a vida do indivíduo e da comunidade. Lá as crianças brincavam, se divertiam, namoravam, casavam e até ensaiavam os primeiros passos no teatro, na música, na composição, interpretação, poesia e outras expressões artístico-culturais. Hoje, o mundo sugou a presença do crente do Templo. De uma educação “templocêntrica”, passamos a ter uma educação “midiacêntrica” em que os meios de comunicação fazem a cabeça de muita gente. Precisamos entender este tempo e nos preparar para sermos igrejas contextualizadas.
3.3. Hoje somos ovelhas únicas de um pastoreio múltiplo. Tele-evangelistas e pastores de renome através do rádio, da tevê e de livros tentam manipular as consciências dos crentes em geral propondo seus métodos e suas crenças.
3.4. Igrejas privilegiam o investimento no “Ministério da Música” por ser de apelo mais forte, mais contemporâneo e imediatista. Já o “Ministério de Educação Cristã” não aparece tanto (a música tem uma vitrine excelente = O CULTO PÚBLICO), já com a educação esta ocorre nos bastidores eclesiásticos, nas salas e nas reuniões menores. Mas este tripé: PALAVRA + MÚSICA + EDUCAÇÃO CRISTÃ deveria ser abraçado como bandeira para a composição básica dos ministérios batistas que visem ao crescimento e a perpetuação de nosso modelo de ser cristão para as gerações futuras.
3.5. A Palavra e a Música devem caminhar juntas para a consecução de nosso ideal maior de alcançar o indivíduo na sua alma.
3.6. Os ministros precisam cultivar uma vida intensa de adoração e louvor, de comunhão íntima com Deus, para que estejam moral e espiritualmente habilitados para ministrar ao rebanho.
3.7. Não devemos nos esquecer que os líderes são espelho de conduta, de comportamento, de fé e de muitos outros aspectos mais comezinhos da vida. Estamos sendo observados a todo instante e nossos liderados reproduzirão o modelo de cristão que estamos passando.
3.8. Ministro da Palavra e Ministro de Música devem ser parceiros do grande projeto maior de tornar Cristo conhecido das gentes e levar os fiéis a amarem a Igreja de Cristo alimentando-os sempre com o conteúdo milenar e saudável que nunca passará, pois é originário de Deus.

4. Flexibilizar a “Ordem de Culto” não implica em perda de identidade
4.1. A Igreja Contemporânea precisa contextualizar-se ao tempo presente. Conquanto muito do que ainda vemos nos cultos modernos tenha uma matriz bíblica, é de se ter a convicção de que já não prestamos um culto no formato neotestamentário. Os tempos são outros, as convicções são outras, as influências são diferentes, a cultura é díspar, a forma de ver e viver a fé mudou.
4.2. Mudar a forma estética (o formato, a ordem das partes constitutivas do culto comunitário, as participações especiais) do culto não significa deixar de sermos o que somos. O que nem todos os líderes estão apercebidos é que ou flexibilizamos esta “ordem do culto” (formatação) para adequarmos-nos aos novos tempos ou corremos o sério risco de perder o bonde da História.
4.3. Muito do que sacralizamos como forma de culto bíblica não passa de “uma forma de culto aprendida”. Ela nos foi ensinada pelos pioneiros, pelos missionários, que a trouxeram de outras terras, conforme seu costume e sua cultura e nós assimilamos como sagrada, sem contestação. Foi boa enquanto durou, mas nem sempre encontra eco nos corações hodiernos.
4.4. Qualquer estudo sociológico nas igrejas evangélicas no Brasil revela a presença de uma massa de juventude muito grande. Enquanto em muitos países do mundo, o evangelicalismo envelheceu, pondo em risco o seu futuro; no Brasil, percebe-se o caminho inverso. Aquilo que Billy Grahan relatou no livro: Jesus e a Geração Jovem, mostrando como houve uma invasão jovem na Igreja Americana está a ocorrer no Brasil. Isto significa que a Igreja tem que voltar sua atenção para este público jovem. Está é uma lei de mercado. Ou nossa “clientela” fica satisfeita com o que oferecemos ou, então, vai procurar qualidade em outro lugar.
4.5. Isto não significa que deva haver uma distensão, esta tensão demasiada que pode provocar uma ruptura de tudo que se construiu até agora. Como já se disse: “O povo que não conhece a sua história está condenado a repetir-lhe os erros.” Os batistas possuímos um legado de fé inigualável que nos oferece condições de rompermos o Século XXI como uma denominação significativa para os brasileiros. É preciso, todavia, capacidade de fazer uma leitura do que somos e temos - e do que o mundo à nossa volta espera de nós -, para adequarmos nossa filosofia de trabalho. E isto começa pelo culto, que é a porta de entrada do indivíduo na realidade da Igreja Local.
4.6. Uma primeira constatação. Somos culpados por praticarmos cultos envilecidos, frios, sem qualquer dinâmica ou criatividade do Espírito e jogamos a culpa disso em uma suposta identidade batista.
4.7. Um primeiro cuidado. Muito do que se tem apresentado como dinamismo da Igreja moderna não passa de estratégia humana para abocanhar os incautos da fé e transformar patrimônios coletivos em propriedade individual; Igreja de Cristo em empresa de homens.
4.8. A nossa identidade batista não está na formatação exterior do culto, mas sim na doutrina. É certo que o culto comunitário (cânticos, coreografia, apresentações, artistas e testemunhadores), muitas vezes, é a porta de entrada para heresias e desvios doutrinários. Mas, quando o púlpito é forte - e consciente de sua missão -, não se corre esse risco. É preciso, portanto, investir na formação de líderes e reciclagem de pastores.
4.9. A preservação da identidade batista é um valor; a adequação da “ordem do culto” (estilo, dinâmica, formato) aos tempos modernos, uma necessidade. Fazê-lo é sinônimo de inteligência; deixar de fazê-lo, a antevéspera do fracasso. Aliar conteúdo e embalagem é o que temos condições de fazer.
4.10. Modelos diferentes de culto (tradicional, avivado, contemporâneo) não ferem nossa identidade. Aliás, preservam a autonomia e a soberania da Igreja local. AMÉM!

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